domingo, 27 de dezembro de 2015

ATOS OBSESSIVOS X PRÁTICAS RELIGIOSAS



A semelhança existente entre os chamados atos obsessivos dos que sofrem de afecções venosas e as práticas pelas quais o crente expressa sua devoção. 
O termo ‘cerimonial’, que tem sido aplicado a alguns desses atos obsessivos que constitui uma evidência disso. 

Em minha opinião, entretanto, essa semelhança não é apenas superficial, de modo que a compreensão interna (insight) da origem do cerimonial neurótico pode, por analogia, estimular-nos a estabelecer inferências sobre os processos psicológicos da vida religiosa.

As pessoas que praticam atos obsessivos ou cerimoniais pertencem à mesma classe das que sofrem de pensamento obsessivo, idéias obsessivas, impulsos obsessivos e afins. Isso, em conjunto, constitui uma entidade clínica especial, que comumente se denomina de ‘neurose obsessiva’ [Zwangsneurose]. 
Mas não devemos tentar inferir de tal denominação a natureza da enfermidade, pois, a rigor, também outras espécies de fenômenos mentais mórbidos podem possuir características ‘obsessivas’. 
Em lugar de uma definição, contentemo-nos, no momento, em obter um conhecimento minucioso desses estados, pois ainda não chegamos ao critério distintivo da neurose obsessiva, que provavelmente se encontra oculto em camadas muito profundas, embora pareça revelar sua presença em todas as manifestações da doença.
Os cerimoniais neuróticos consistem em pequenas alterações em certos atos cotidianos, em pequenos acréscimos, restrições ou arranjos que devem ser sempre realizados numa mesma ordem, ou com variações regulares. 

Essas atividades, meras formalidades na aparência, afiguram-se destituídas de qualquer sentido. 
O próprio paciente não as julga diversamente, mas é incapaz de renunciar a elas, pois a qualquer afastamento do cerimonial manifesta-se uma intolerável ansiedade, que o obriga a retificar sua omissão. 

Tão triviais quanto os próprios atos cerimoniais são as ocasiões e as atividades ornamentadas, complicadas e sempre prolongadas pelo cerimonial – por exemplo, vestir e despir-se, o ato de deitar-se ou de satisfazer as necessidades fisiológicas. 
O cerimonial é sempre executado como se tivesse de obedecer a certas leis tácitas. Tomemos, por exemplo, um cerimonial relativo ao ato de deitar-se: a cadeira deve ficar numa determinada posição ao lado da cama, as roupas colocadas sobre a mesma numa determinada ordem, o cobertor preso embaixo do colchão e o lençol bem esticado, os travesseiros arrumados de maneira especial, e o corpo da pessoa deve adotar uma posição bem determinada. 
Só depois disso tudo ela poderá dormir. 
Em casos leves, o cerimonial parece ser nada mais do que a intensificação de hábitos ordeiros muito justificáveis; é a especial consciência que cerca sua execução e a ansiedade que surge com qualquer falha que lhe dão o caráter do ‘ato sagrado’. Em geral se suporta mal qualquer interrupção no cerimonial, sendo quase sempre excluída a presença de outras pessoas durante sua realização.

Toda atividade pode converter-se em um ato obsessivo, no sentido mais amplo do termo, se for complicada por pequenos acréscimos ou se adquirir um caráter rítmico através de pausas e repetições. 
Não esperemos encontrar uma distinção nítida entre ‘cerimoniais’ e ‘atos obsessivos’. Em geral os atos obsessivos derivam-se de cerimoniais. 
Além desses, o conteúdo do distúrbio abrange proibições e impedimentos (abulias), que na realidade apenas levam adiante o trabalho dos atos obsessivos, portanto algumas coisas são completamente vedadas ao paciente e outras só permitidas após a realização de um determinado cerimonial.
É singular que tanto as compulsões como as proibições (ter de fazer isso e não ter de fazer aquilo) aplicam-se inicialmente só às atividades solitárias do sujeito, e por muito tempo não afetam seu comportamento social. 
Conseqüentemente, os que sofrem dessa enfermidade são capazes de manter o seu mal como um assunto particular, ocultando-o por muitos anos. Na verdade, o número de pessoas que sofrem dessas formas de neurose obsessiva é muito maior do que o que chega ao conhecimento dos médicos. 
Além disso, para muitas vítimas a ocultação se torna fácil tendo em vista que são capazes de desempenhar seus deveres sociais durante parte do dia, desde que devotem certo número de horas a suas atividades secretas, longe de olhares, como Mélusine.
É fácil perceber onde se encontram as semelhanças entre cerimoniais neuróticos e atos sagrados do ritual religioso: nos escrúpulos de consciência que a negligência dos mesmos acarreta, na completa exclusão de todos os outros atos (revelada na proibição de interrupções) e na extrema consciência com que são executados em todas as minúcias. 
Mas as diferenças são igualmente óbvias, e algumas tão gritantes que tornam qualquer comparação um sacrilégio: a grande diversidade individual dos atos cerimoniais [neuróticos] em oposição ao caráter estereotipado dos rituais (as orações, o curvar-se para o leste, etc.), o caráter privado dos primeiros em oposição ao caráter público e comunitário das práticas religiosas, e acima de tudo o fato de que, enquanto todas as minúcias do cerimonial religioso são significativas e possuem um sentido simbólico, as dos neuróticos parecem tolas e absurdas. 
Sob esse aspecto a neurose obsessiva parece uma caricatura, ao mesmo tempo cômica e triste, de uma religião particular, mas é justamente essa diferença decisiva entre o cerimonial neurótico e o religioso que desaparece quando penetramos, com o auxílio da técnica psicanalítica de investigação, no verdadeiro significado dos atos obsessivos. 

No decurso dessa investigação, dilui-se completamente o aspecto tolo e absurdo de que se revestem os atos obsessivos, sendo explicada a razão de tal aspecto. 
Descobre-se que todos os detalhes dos atos decisivos possuem um sentido que servem a importantes interesses da personalidade, e que expressam experiências ainda atuantes e pensamentos caracterizados com afeto. 
Fazem isso de duas formas: por representação direta ou simbólica, podendo, conseqüentemente, ser interpretados histórica ou simbolicamente.

Devo ilustrar com alguns exemplos essa minha asserção. 
Os que estão familiarizados com os achados da investigação psicanalítica das psiconeuroses não se surpreenderão ao saber que o que está sendo representado em atos obsessivos e em cerimoniais deriva das experiências mais íntimas do paciente, principalmente das sexuais.
(a) Uma jovem que esteve sob minha observação sofria da compulsão de fazer a água revolutear na bacia várias vezes após se lavar. 
O significado desse ato cerimonial prendia-se ao seguinte ditado: ‘Não jogue fora a água suja até obter uma limpa’. 
Com esse ato pretendia advertir a irmã, a quem era muito afeiçoada, e impedi-la de se divorciar de um marido pouco satisfatório até que firmasse uma relação com um homem melhor.
(b) Uma mulher que estava vivendo separada do marido via-se sob a compulsão de deixar intacta a melhor porção de tudo aquilo que comia: por exemplo, só aproveitava as beiradas de uma fatia de carne assada. 
A explicação dessa renúncia foi encontrada por meio da data de sua origem. Ela surgiu no dia seguinte àquele em que se recusara a ter relações maritais com seu marido – isto é, após ter renunciado ao melhor.
(c) A mesma paciente só podia sentar-se em uma determinada cadeira, da qual se levantava com dificuldade. 
Devido a certos aspectos de sua vida de casada, a cadeira simbolizava o marido, a quem ela permanecia fiel. Essa mulher encontrou a explicação para sua compulsão na seguinte frase: ‘É tão difícil nos separarmos de alguma coisa (um marido, uma cadeira) a que já nos fixamos.’
(d) Durante algum tempo ela repetiu um ato obsessivo especialmente singular e absurdo: saía correndo do seu quarto para outro onde havia uma mesa de centro; arrumava a toalha dessa mesa duma determinada forma e, tocando a sineta, chamava a criada; fazia com que esta se aproximasse da mesa e a despedia após incumbi-la de alguma tarefa sem importância. 
Tentando encontrar uma explicação para tal compulsão, lembrou-se de que a toalha da mesa estava manchada e de que sempre a arrumava de maneira a que a mancha fosse forçosamente vista pela criada. 
Essa cena era a reprodução de uma experiência de sua vida conjugal que muito ocupara sua mente, constituindo-lhe um problema. 
Na noite de núpcias o marido sofrera um percalço bastante comum: vira-se impotente. 
Durante a noite ele correra várias vezes de seu quarto para o dela, em renovadas tentativas de obter sucesso; pela manhã, com vergonha da arrumadeira do hotel que faria as camas, derramou o conteúdo de um vidro de tinta vermelha no lençol, mas de forma tão canhestra que o manchou num local pouco adequado a seus propósitos. 
Portanto, com seu ato obsessivo ela representava a noite de núpcias. ‘Cama e mesa’ entre eles compõem o casamento.
(e) Outra compulsão que adquiriu – a de anotar o número de todas as décadas de papel-moeda antes de se desfazer das mesmas – teve de ser interpretada historicamente. 
Numa época em que ainda tencionava separar-se do marido, se encontrasse outro homem mais digno de confiança, permitiu-se receber as atenções de um cavalheiro que conhecera numa estação de águas, mas de cuja seriedade duvidava. 
Certo dia, com falta de dinheiro miúdo, pedira-lhe para trocar uma moeda de cinco coroas. 
Ele a satisfez, e guardando a moeda declarou galantemente que jamais se separaria da mesma, pois estivera nas mãos dela. 
Em encontros posteriores, ela com freqüência sentiu a tentação de desafiá-lo a mostrar a moeda de cinco coroas, como se quisesse convencer-se de que podia acreditar em suas intenções, mas conteve-se tendo em vista que é impossível distinguir uma determinada moeda entre outras do mesmo valor. Assim, sua dúvida não foi resolvida, deixando-lhe a compulsão de anotar os números das notas, de modo a poder distinguir umas das outras.
Com esses poucos exemplos, escolhidos entre os muitos que reuni, tenciono simplesmente ilustrar minha afirmativa de que nos atos obsessivos tudo tem sentido e pode ser interpretado. 
O mesmo se pode dizer dos cerimoniais propriamente ditos, só que para corroborar tal asserção seriam necessárias maiores provas. 
Estou cônscio de que nossas explicações acerca dos atos obsessivos aparentemente nos estão afastando da esfera do pensamento religioso.
Uma das condições da doença é o fato de que a pessoa que obedece a uma compulsão, o faz sem compreender-lhe o sentido – ou, pelo menos, o sentido principal. 
É somente através dos esforços do tratamento psicanalítico que ela se torna consciente do sentido do seu ato obsessivo e, simultaneamente, dos motivos que a compelem ao mesmo. 
Esse fato importante pode ser expresso da seguinte forma: o ato obsessivo serve para expressar motivos e idéias inconscientes. 
Com essa afirmação, parece que nos afastamos ainda mais das práticas religiosas, mas devemos recordar que em geral também o indivíduo normalmente piedoso executa o cerimonial sem ocupar-se de seu significado, embora os sacerdotes e os investigadores científicos estejam familiarizados com o significado, em grande parte simbólico, do ritual. 
Para os crentes, entretanto, os motivos que os impelem às práticas religiosas são desconhecidos ou estão representados na consciência por outros que são desenvolvidos em seu lugar.
A análise de atos obsessivos já nos possibilitou alguma compreensão interna (insight) de suas causas e da seqüência de motivos que os tornam ativos. 
Podemos dizer que aquele que sofre de compulsões e proibições comporta-se como se estivesse dominado por um sentimento de culpa, do qual, entretanto, nada sabe, de modo que podemos denominá-lo de sentimento inconsciente de culpa, apesar da aparente contradição dos termos. 
Esse sentimento de culpa origina-se de certos eventos mentais primitivos, mas é constantemente revivido pelas repetidas tentações que resultavam de cada nova provocação. 
Além disso, acarreta um furtivo sentimento de ansiedade expectante, uma expectativa de infortúnio ligada, através da ideia de punição, à percepção interna da tentação. 
Quando o cerimonial é formado, o paciente ainda tem consciência de que deve fazer isso ou aquilo para evitar algum mal, e em geral a natureza desse mal que é esperado ainda é conhecida de sua consciência. 
Contudo, o que já está oculto dele é a conexão – sempre demonstrável – entre a ocasião em que essa ansiedade expectante surge e o perigo que ela provoca. Assim o cerimonial surge com um ato de defesa ou de segurança, uma medida protetora.
O sentimento de culpa dos neuróticos obsessivos corresponde à convicção dos indivíduos piedosos de serem, no íntimo, apenas miseráveis pecadores; e as práticas devotas (tais como orações, invocações, etc.) com que tais indivíduos precedem cada ato cotidiano, especialmente os empreendimentos não habituais, parecem ter o valor de medidas protetoras ou de defesa.
Obteremos uma compreensão interna (insight) mais profunda do mecanismo da neurose obsessiva se considerarmos o fato fundamental que a mesma oculta. 
Há sempre a repressão de um impulso instintual (um componente do instinto sexual) presente na constituição do sujeito e que pôde expressar-se durante algum tempo em sua infância, sucumbindo posteriormente à pressão. 
No decurso da repressão do instinto cria-se uma consciência especial, dirigida contra os objetivos do instinto; essa formação reativa psíquica, porém, sente-se insegura e constantemente ameaçada pelo instinto emboscado no inconsciente. 
A influência do instinto reprimido é sentida como uma tentação, e durante o próprio processo de repressão gera-se a ansiedade que adquire controle sobre o futuro, sob a forma de ansiedade expectante. 
O processo de repressão que acarreta a neurose obsessiva deve ser considerado como um processo que só obtém êxito parcial, estando constantemente sob a ameaça de um fracasso. 
Podemos, pois, compará-lo a um conflito interminável; reiterados esforços psíquicos são necessários para contrabalançar a pressão constante do instinto. 
Assim, os atos cerimoniais e obsessivos surgem, em parte, como uma proteção contra a tentação e, em parte, como proteção contra o mal esperado. 
Essas medidas de proteção logo parecem tornar-se insuficientes contra a tentação, surgindo então as proibições, cuja finalidade é manter à distância as situações que podem originar tentações. 
Veremos que as proibições substituem os atos obsessivos assim como uma fobia evita um ataque histérico. 
Assim, um cerimonial é um conjunto de condições que devem ser preenchidas, da mesma forma que uma cerimônia matrimonial da Igreja significa para o crente uma permissão para desfrutar os prazeres sexuais, que de outra maneira seriam pecaminosos. Uma outra característica da neurose obsessiva, e de todas as enfermidades semelhantes, é que suas manifestações (seus sintomas, inclusive os atos obsessivos) preenchem a condição de ser uma conciliação entre as forças antagônicas da mente. Essas manifestações reproduzem, assim, uma parcela daquele mesmo prazer que pretendiam evitar, e servem ao instinto reprimido tanto quanto às instâncias que o estão reprimindo. 
Na verdade, ao passo que a enfermidade progride, os atos que de início se destinavam principalmente a manter a defesa aproximam-se progressivamente dos atos proibidos pelos quais o instinto pôde expressar-se na infância.
Também na esfera da vida religiosa encontraremos alguns aspectos desse estado de coisas. A formação de uma religião parece basear-se igualmente na supressão, na renúncia, de certos impulsos instintuais. 
Entretanto, esses impulsos não são componentes exclusivamente do instinto sexual, como no caso das neuroses; são instintos egoístas, socialmente perigosos, embora geralmente abriguem um componente sexual. 
Afinal, o sentimento de culpa resultante de uma tentação contínua e a ansiedade expectante sob a forma de temor da punição divina nos são familiares há mais tempo no campo da religião do que no da neurose. 
Talvez devido à intromissão de componentes sexuais, talvez pelas características gerais dos instintos, também na vida religiosa a supressão do instinto revela-se um processo inadequado e interminável. 
Na realidade, as recaídas totais no pecado são mais comuns entre os indivíduos piedosos do que entre os neuróticos, dando origem a uma nova forma de atividade religiosa: os atos de penitência, que têm seu correlato na neurose obsessiva.
Já assinalamos, como característica curiosa e menosprezável da neurose obsessiva, que seus cerimoniais se prendem aos atos menores da vida cotidiana e se expressam através de restrições e regulamentações tolas em conexão com eles. 
Só compreendemos esse singular aspecto do quadro clínico quando percebemos que os mecanismo do deslocamento psíquico, por mim descoberto inicialmente na construção de sonhos, domina os processos mentais da neurose obsessiva. 
Os poucos exemplos de atos obsessivos já citados tornam claro que o simbolismo e os pormenores desses mesmos atos resultam de um deslocamento, da substituição do elemento real e importante por um trivial – por exemplo, do marido pela cadeira. 
É essa tendência para o deslocamento que modifica progressivamente o quadro clínico, terminando por transformar um fato extremamente banal em algo da maior urgência e importância. 
É inegável que também no campo religioso existe uma tendência para o deslocamento de valores psíquicos, e em sentido análogo, de forma que os cerimoniais triviais da prática religiosa gradualmente adquirem um caráter essencial, tomando o lugar dos pensamentos fundamentais. 
Por isso é que as religiões sofrem reformas de caráter retroativo, que visam restabelecer o equilíbrio original dos valores.
O caráter de conciliação que os atos obsessivos possuem em sua qualidade de sintomas neuróticos não é tão evidente nas práticas religiosas correspondentes. 
Mas também nestas descobrimos esse aspecto das neuroses quando lembramos a freqüência com que são cometidos, justamente em nome da religião e aparentemente por sua causa, todos os atos proibidos pela mesma – ou seja, as expressões dos instintos por ela reprimidos.
Diante desses paralelos e analogias podemos atrever-nos a considerar a neurose obsessiva com o correlato patológico da formação de uma religião, descrevendo a neurose como uma religiosidade individual e a religião como uma neurose obsessiva universal. 
A semelhança fundamental residiria na renúncia implícita à ativação dos instintos constitucionalmente presentes; e a principal diferença residiria na natureza desses instintos, que na neurose são exclusivamente sexuais em sua origem, enquanto na religião procedem de fontes egoístas.
A renúncia progressiva aos instintos constitucionais, cuja ativação proporcionaria o prazer primário do ego, parece ser uma das bases do desenvolvimento da civilização humana. 
Uma parcela dessa repressão instintual é efetuada por suas religiões, ao exigirem do indivíduo que sacrifique à divindade seu prazer instintual: ‘A vingança é minha, diz o Senhor’. 
No desenvolvimento das religiões antigas, pode-se ver que muitas coisas a que a humanidade renunciou como sendo ‘iniquidades’ haviam sido abandonadas à divindade e ainda eram permitidas em seu nome, de modo que a atribuição a ela dos instintos maus e socialmente nocivos era o meio como o homem se libertava da dominação deles. 
Por isso, e não por casualidade, todos os atributos humanos, inclusive os crimes que deles derivam, foram imputados, num grau ilimitado, aos deuses antigos. 
Nem tampouco é uma contradição que, apesar disso, não fosse permitido ao homem justificar suas próprias iniquidades com o exemplo divino.
A HISTERIA




A história da histeria se repete. Hoje em dia encontramos a mesma polêmica do final do século 19, quando o médico francês Martin Charcot transformou o Hospital de La Salpêtrière, em Paris, em um grande laboratório de pesquisa clínica sobre a patologia. Foi ali que recebeu o então jovem neurologista Sigmund Freud, que de lá saiu para criar uma nova área de conhecimento: a psicanálise.

Foi Freud quem descobriu a causa sexual da histeria. E demonstrou que, ao contrário do que reza o senso comum, não é por falta de sexo que uma mulher é histérica. Ela não faz sexo justamente por ser histérica, tem aversão ao sexo devido a um trauma na infância. E isso não ocorre apenas na histeria: de alguma forma, o sexo é traumático para todos. Há sempre um descompasso entre o gozo e o sujeito: ou é muito pouco e o sujeito fica insatisfeito como na histeria ou é demasiadamente bom e o sujeito não suporta e se defende, postergando o gozo e considerando o desejo impossível, como o faz o neurótico obsessivo.

O sintoma histérico é um sintoma social, pois, para que ele se manifeste, o sujeito precisa de um espectador para quem vai atuar na peça escrita por um autor chamado Inconsciente – o que dá a impressão de a pessoa estar “fazendo um teatro”. Mas quem disse que não há verdade no teatro? A paciente histérica e Charcot constituem um laço social, definido por Lacan como “discurso histérico”.

Não é verdade que hoje em dia não se encontram mais as “histéricas de Charcot”. O ataque histérico epileptiforme é tão comum que ganhou, na atual neurologia, um nome: “pseudocrise”. Conversões histéricas povoam os ambulatórios médicos e chegam à mesa cirúrgica; delírios e alucinações histéricas de possessão demoníaca assombram as igrejas evangélicas e surgem nos serviços psiquiátricos como “psicoses breves” ou “transtornos dissociativos”. A histeria aparece como “o diabo no corpo” nos centros de umbanda, como coreia (ou dança de são guido) e transtornos somatoformes ou, em formas mais medicalizadas, como espasmofilia. Isso sem contar os diversos distúrbios alimentares que vão da bulimia à anorexia – e assinalam o gozo da oralidade típico da estrutura histérica. Os discípulos críticos de Charcot contribuíram para o abandono dos ensinamentos do mestre. Ao rejeitar o termo “histeria”, Babinski põe em seu lugar o pitiatismo (etimologicamente, “cura pela persuasão”), vulgo “piti”, que desqualifica as histéricas, fazendo-as novamente objeto de escárnio e agressão.

Freud, no entanto, levou a sério o que seu mestre detectou: no sintoma histérico há sempre verdade, mesmo quando é feito de mentira; e, como o sintoma neurológico, ele é da ordem do real, pois em seu cerne há sempre uma lesão – “dinâmica” para Charcot –, a lesão do sexo. A verdade da mentira histérica que aparece em sua encenação desvela o “diabo” no corpo – um diabo chamado gozo.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015



O COMPLEXO DE ÉDIPO


De acordo com Freud todo ser humano deve sua origem a um pai e a uma mãe, não tendo como escapar dessa triangulação que constitui o centro do conflito humano. Essa triangulação perpassa por toda a vida do sujeito, sendo esse acontecimento que definirá a estrutura psíquica do indivíduo.
O Complexo de Édipo foi um conceito criado por Sigmund Freud. O fundador da psicanálise que teve como base a mitologia grega do Édipo Rei. Nesse cenário, Édipo, sem saber que Jocasta é sua mãe, casa-se com ela e assassina o próprio pai, inconsciente do grau de parentesco familiar. Quando descobre a verdade, Édipo, cega a si mesmo e sua mãe se suicida.
Esse conceito é universal na psicanálise, visto que desperta sentimentos de amor e ódio direcionados para aqueles que lhes são mais próximos, os pais. O complexo de Édipo ocorre quando a criança está atravessando a fase fálica, ou seja, quando descobre que ao atingir três anos de idade passa a ser alvo de varias proibições que para ele eram desconhecidas. Nesse momento, a criança não pode mais fazer o que bem entende, a família e a sociedade começam a impor regras, limites e padrões.
Nesse sentido, quando a criança percebe que está nesse momento da vida e reconhece a distinção entre ela e seus genitores, ela ingressa em uma das fases mais importantes de sua vida, tendo em vista que definirá seu comportamento na idade adulta, principalmente referente na esfera sexual.
Sendo assim, o Complexo de Édipo é um dos conceitos mais famosos na teoria freudiana, ao passo que o fundador da psicanálise passou anos a fio elaborando e repensando até chegar ao conceito final. Inicialmente, o Complexo de Édipo se referia a uma escolha objetal, mas, lentamente, torna-se um processo central para o desenvolvimento do conceito de identificação.


O termo Édipo surge desde o início dos estudos de Freud, porém, só ganha uma elaboração mais definitiva no momento em que Freud finaliza sua obra.
No menino o complexo de Édipo se desenvolve através de um investimento objetal para com a mãe, dirigido, primeiramente, para o seio materno, modelo anaclítico de espelho objetal. A sua relação com o pai é de identificação. Esses dois relacionamentos não têm longa duração, pois logo os desejos incestuosos do menino pela mãe se tornam mais intensos, e o pai passa a ser visto como um obstáculo a eles; disso se origina o complexo de Édipo. Logo, a identificação com o pai carrega-se de hostilidade, e o desejo de livrar-se dele predomina, bem como a ideia de ocupar seu lugar junto à mãe. A ambivalência inerente à identificação, desde o início, se manifesta dominando a relação com o pai. Portanto, o complexo de Édipo positivo do menino se caracteriza por uma atitude ambivalente em relação ao pai e por uma relação objetal afetuosa com a mãeSegundo Freud (1900, p.261), durante a infância, “apaixonar-se por um dos pais e odiar o outro figuram entre os componentes essenciais do acervo de impulsos psíquicos que se formam nessa época”


.Portanto, o fim do complexo de Édipo é correlativo da instauração da lei. É pelo medo da castração que o menino começa a desistir de sua paixão incestuosa, iniciando o processo pelo qual acabará por identificar-se com a Lei do Pai, assim para Freud a lei repousa na interdição do incesto. “Os investimentos objetais são abandonados e substituídos por uma identificação. A autoridade do pai introjetada no ego forma o núcleo do superego, que assume a severidade do pai e perpetua a proibição deste contra o incesto, defendendo o ego do retorno da libido” (FREUD, 1977, p. 221).Ao mesmo tempo em que estas fantasias claramente incestuosas são superadas e repudiadas, completa-se uma das conquistas mais significativas, mas também mais dolorosas, do período puberal: a emancipação da autoridade dos pais, único processo que permite o surgimento da oposição entre a velha e a nova geração, tão fundamental para o progresso da civilização. (Freud apud Mezan:2003:136)


A Dissolução do Complexo de Édipo




Para entendermos o que acontece no Complexo de Édipo é preciso voltarmos um pouco na “historia” do sujeitos, no que poderíamos chamar de “primórdios” da relação com o objeto. O primeiro objeto erótico de uma criança é o seio da mãe que alimenta. A origem do amor está ligada à necessidade satisfeita de nutrição. Este primeiro objeto- o seio – é ampliado à figurada da mãe da criança, que não apenas a alimenta, mas também cuida dela e, assim, desperta-lhe um certo número de outras sensações físicas, agradáveis e desagradáveis. Através dos cuidados com o corpo da criança, a mãe torna-se seu primeiro “sedutor”. “Nessas duas relações reside a raiz da importância única, sem paralelo, de uma mãe, estabelecida inalteravelmente para toda a vida como o primeiro e mais forte objeto amoroso e como protótipo de todas as relações amorosas posteriores – para ambos os sexos” (FREUD, 1940/1996, p.202).
A destruição do complexo de Édipo é ocasionada pela ameaça da castração. Nesse caso, a catexia objetal da mãe deve ser abandonada. O seu lugar pode ser preenchido por uma das duas coisas: Uma identificação com a mãe ouuma intensificação de sua identificação com o pai, como resultado mais normal e que consolidaria a masculinidade, no caso do menino.
De modo que, nos meninos, o complexo de Édipo é destruído pelo complexo de castração, nas meninas ele se faz possível e é introduzido através do complexo de castração. A menina aceita a castração como um fato consumado, ao passo que o menino teme a possibilidade de sua ocorrência.
O complexo de Édipo, apesar de acontecer na infância, o sujeito revive esse fato na adolescência e os resultados dele estão presentes na vida de qualquer adulto. De acordo com a lenda do Édipo Rei, para Freud (1917), ouvi-la é um certo horror para todos os sujeitos, uma que vez que esta “evoca” o que estava adormecido – os desejos incestuosos.




                                                 O COMPLEXO DE ELECTRA PARTE II

Para as meninas, o problema do Complexo de Édipo é similar, inverso. A menina deseja possuir seu pai e vê sua mãe como a maior rival. A menina tenta seduzir o pai e, se o casal for funcional, quem vai faz o rompimento é a mãe, esclarecendo para a filha que ele é seu pai e marido da mãe. É num primeiro momento um choque entre mãe e filha, mas através de um bom relacionamento de troca e identificação com a mãe (colocar os cremes da mãe, o batom, os sapatos, as roupas) termina aqui o complexo de Electra.Importante salientar que, no complexo de Édipo, o primeiro amor do filho é heterossexual (a mãe) e ele disputa com o pai. Já na questão feminina (Electra), o primeiro amor é homossexual (a mãe), por volta dos três anos instintivamente, a menina se apaixona pelo pai, e se sente traindo a mãe que foi seu primeiro amor, o que provoca um sentimento de culpa que pode marcar a menina pelo resto da vida; essa culpa pode acarretar numa relação disfuncional ou difícil como foi a relação com a mãe.Porém, quando um casal tem uma relação desequilibrada afetivamente, pode ocorrer um Complexo de Electra Disfuncional, ou seja, a filha vai seduzir o pai e a mãe não faz rompimento, porque ela não se importa com o pai. A mãe inclusive, projeta na filha que ela seja a filha/esposa que o pai idealiza. Nesse caso, a filha deixa de ter um referencial no papel de pai, podendo ocorrer um envolvimento sexual que pode chegar a acontecer realmente. Ela é que pode não querer se casar, porque inconsciente se sente casada com o pai. Ou poderá buscar relacionar-se afetiva e sexualmente com homens mais velhos (que representam a figura do pai). Pode ainda acontecer dela não conseguir se relacionar afetivamente com a mãe (e vice-versa), por se sentirem rivais de fato, o que culmina na falta de referencia de pai e mãe. A filha pode ainda, criar uma aversão à mãe,  ela vai se identificar com o pai, porque a mãe não fez rompimento, porém ela pode criar uma identidade masculinizada e caso ela tenha uma irmã pode tratar a irmã como filha. Neste caso pode ocorrer uma homossexualidade latente ou emergente e esta poderá buscar na relação com outra mulher a mãe que não teve.  Há ainda aquelas mulheres homossexuais que amam o pai e odeiam a mãe, como o inverso, aquelas  que odeiam o pai e defendem a mãe que é anulada e submissa a esse pai.Já quando o pai exerce o papel feminino, mas tem um relacionamento afetivo-sexual harmonioso com a mãe, quando a filha o seduz, a mãe faz o rompimento e a filha passa a se identificar com a mãe, que exerce o papel masculino no relacionamento do casal. Nesse caso, a filha irá ao relacionar-se afetiva e sexualmente procurar um homem que tenha a sensibilidade do pai.Porém, quando essa inversão de papéis não é aceita pela mãe, e o casal tem um relacionamento em desarmonia, a mãe cria frente à filha uma imagem negativa do pai, o que pode ocorrer pelo fato do pai ser afetivo com a filha e a mãe sentir-se enciumada, o que pode dificultar o relacionamento da filha com outros homens, por ela não ter um referencial positivo do pai, por não valorizá-lo enquanto homem, sendo assim, a filha irá buscar uma relação homoafetiva com uma mulher que seja passiva como o pai.A superação do complexo de Electra se dá quando a menina passa a se identificar novamente com a mãe, assumindo uma identidade feminina e buscando em outros homens referências como a do seu pai.Importante apontarmos que, numa relação disfuncional entre um casal, ou seja, quando ambos não exercem nem seus papéis sociais masculinos e femininos nem suas funções pais, os filhos ficam órfãos de referenciais afetivo-sexuais, e com uma carência afetiva e emocional sobre como é ter e exercer o papel de pai e mãe. Muitas vezes, na relação é a criança que acaba exercendo o papel de seus cuidadores, tendo que tomar decisões que caberiam aos adultos. Esta criança, futuramente, poderá ter dificuldades emocionais e buscar na fase adulta de um relacionamento afetivo com uma pessoa que exerça não apenas o papel afetivo-sexual do relacionamento marido-mulher, mas também de forma compensatória, alguém que possa suprir a carência que a criança teve na infância de atenção, cuidado e amor paternal e maternal. Assim como, esta pessoa também irá exercer com o companheiro(a) diversos papéis. O tratamento que dispensará ao seu companheiro(a) irá se diversificar podendo tratar a outra pessoa ora como filho(a), ora como pai, ora como mãe.  Importante lembrarmos que as atitudes, comportamentos e relações afetivo-sexuais dos pais serão base sobre a qual a criança formará sua identidade. Muitas vezes, neste período quer dormir entre os pais, dizendo que se sente amedrontada. Porém, devemos lembrar que embora seja que as crianças sintam-se protegidas também precisa aprender sobre limites.



Devemos esclarecer que temos espaços conjuntos e espaços individuais, que devem ser respeitados, por isso, vocês pais não devem permitir às crianças invadir sua privacidade. Temos que apoiar nos filhos, estar sempre presentes em suas vidas, protegê-los, fazer com se sintam amados, mas isso não significa anular nossa vida em função deles, quando nos anulamos seja por qual motivo for, nos tornamos pessoas frustradas e por isso incapazes de amar e ser feliz plenamente, e se não estamos bem não conseguimos proporcionar isso a outrem.Não deixem de viver sua vida de casal em prol de manhas, choros que normalmente ocorrem quando os pais resolvem sair juntos, entendam que esse limite também é um aprendizado necessário para a maturidade da criança. Expliquem que assim como temos a hora de comer, de dormir, de brincar, de ir à escola, de fazer a lição de casa, de jogar com o papai, etc. Temos também a hora do papai da mamãe estarem juntos, namorar.Ainda pautando na psicanálise se a criança não desenvolver adequadamente essa fase, ou tenha exemplos de identificação negativos, pai ou mãe  agressivos, repressores, alcoólatras, a criança cria uma aversão ao seu progenitor do mesmo sexo, e passa a se identificar com o outro, o que Freud aponta como uma polêmica causa para a homossexualidade. Ainda em relação a personalidade crianças que não superaram esta fase e tiveram pais muito rudes, podem tornar-se pessoas que querem sempre ditar as regras, esbanjar dinheiro, estar sempre na liderança, como forma inconsciente e compensatória de acreditar e mostrar que não sofreu a castração.Crianças que superam amorosamente as fases do desenvolvimento psicossexual, serão adultos mais afetivos e  equilibrados, sensíveis, capazes de que expressar seus sentimentos, de cultivar amizades, enfim serão mais felizes.



O COMPLEXO DE ELECTRA



O complexo de Electra é baseado no um mito grego segundo o qual Electra, para vingar o pai, Agamêmnon, incita seu irmão Orestes a matar a mãe, Clitemnestra, e seu amante Egisto, que haviam assassinado Agamêmnon.Como vimos, no complexo de Édipo o menino sente um amor intenso pela mãe, identificando-se com o pai, sente desejo em ocupar seu lugar sentindo então raiva, medo e culpa. Imagina então que o pai pode cortar seu pênis (complexo de castração). A menina também vive este complexo, mas neste caso sente inveja do pênis, originando o denominado complexo de Electra.A menina, nesta fase, sente uma espécie de frustração e ressentimento para com a mãe, culpabilizando-a por não possuir o pênis, este é um momento crítico no desenvolvimento feminino. Segundo Freud: "A descoberta de que é castrada representa um marco decisivo no crescimento da menina. Daí partem três linhas de desenvolvimento possíveis: uma conduz à inibição sexual ou à neurose, outra à modificação do caráter no sentido de um complexo de masculinidade e a terceira, finalmente, à feminilidade normal"(1933, livro XXIX, p.31).Inicialmente, tal como os meninos é para a mãe que são dirigidos os impulsos eróticos da menina, mas por considerar-se castrada pela mãe, ela busca nas excitações clitorianas a resposta para o que a diferencia anatomicamente do menino, mas a expectativa de que o clitóris cresça e se transforme num pênis é logo descartada. O que gera um sentido de frustração para a com a mãe, quando ela sente que precisa abandonar o foco do clitóris para a vagina e canalizar o amor que sentia pela mãe no amor paterno.





O Sonho à Luz da Psicanálise

Diante de tantos acontecimentos vividos diariamente, tantos compromissos e atividades efetuadas de forma sistemática, acabamos nos defrontando com o cansaço e o stress da vida moderna. Quando conseguimos nos desligar deste mundo atribulado e cheio de informações, só pensamos em descansar a nossa mente e o nosso corpo e prepará-lo para uma bela noite de sono.
Quando dormimos entramos em um “processo mágico”, pois é durante o sono que alcançamos e sentimos o poder de mergulhar em um mundo totalmente novo e secreto: o nosso Inconsciente.
Durante o sono dispomos de forças inconscientes que nos levam a sonhar, todas as pessoas sonham e os sonhos como nos diz Freud, são a realização de um desejo. Desejos esses que existem dentro de cada um, mas que devido aos costumes, cultura, educação e a moral da sociedade, foram recalcados, reprimidos ficando assim, no mais fundo e obscuro de nosso inconsciente, só manifestando seu poder durante os sonhos.
Os sonhos á luz da psicanálise são como uma válvula de escape para nossos desejos mais secretos, desejos vistos como proibidos por nós mesmos através do que a sociedade nos impõe, sublimados e manifestados nos sonhos.

Os conteúdos inconscientes sempre estiveram presentes e se manifestam em nossa vida de diversas formas, entretanto, essas manifestações inconscientes só tiveram total atenção com os trabalhos de Freud sobre a interpretação dos sonhos, que até então era desprezada pelos cientistas da época.
Os sonhos possuem conteúdos manifestos e latentes e fazer a distinção destes conteúdos para Freud foi um canal de encontro para a estranheza das pessoas que deparavam com seus pensamentos. Pois, os conteúdos latentes dos sonhos, indicavam manifestações do inconsciente e eram necessários métodos exclusivos para se entender o real significado, feito isso, os sonhos acabavam se revelando como desejos inconscientes sempre com material recalcado e infantil indicando uma relação com algo de caráter sexual.
Entender os significados dos sonhos a priori foi de extrema importância para a teoria psicanalítica, pois através de suas interpretações, foi possível desvendar o material oculto de cada individuo e concomitantemente entender a sua construção psíquica.
Os sonhos configuram-se como métodos de descargas de pensamentos, que são sublimados para que dessa forma não afetem diretamente nosso imaginário, por isso muitos sonhos são vistos como absurdos e ilógicos à primeira vista, embora seja totalmente o contrário. O material dos sonhos possui conteúdo psicológico fundamental para o estudo da mente.
Para se analisar os sonhos são imprescindíveis que não se direcione a atenção somente aos conteúdos manifestos, mas principalmente nos conteúdos latentes dos sonhos, pois é ai que se encontra seu verdadeiro significado.
 Portanto, dar atenção aos sonhos e aos seus significados é ao mesmo tempo dar atenção aos conteúdos mentais que foram recalcados e sublimados da consciência pela ação de nosso ego e superego, pois é nos sonhos que nossos desejos primitivos e instintivos (id) encontram vazão para conquistar seu lugar ao sol.
Ao falarmos de sonho, estamos nos referindo ao termo “sonho manifesto”, que é quando o indivíduo faz o relato do que vivenciou dentro do sonho, logo após ter acordado, ou seja, é o ato de lembrar-se. Quando nos referimos ao que o sonho traz, seu significado, dizemos que este ato é especificado como “conteúdo latente do sonho”.
O conteúdo latente do sonho é a primeira parte do processo de sonhar formado por três componentes: I- impressões sensoriais noturnas; II- pensamentos e idéias relacionadas às atividades do dia (fragmentos do nosso cotidiano, antes de pegamos no sono); III- impulsos do ID.
São as impressões sensoriais do indivíduo que se referem ao que os sentidos capturam mesmo durante o período de dormência ( os barulhos ao seu redor; seus desejos, como beber água, calor, frio,etc.) tudo o que podemos adquirir nesse estágio se refere ao conteúdo latente do sonho.
Em relação aos pesadelos, eles foram um dos maiores desafios que Freud encontrou, ele era a prova de fogo que desafiava a doutrina do pai da psicanálise. Pensando que o sonho era a realização de um desejo reprimido; não poderíamos sentir a tristeza, ou seja, o desespero e a angústia do pesadelo, se de certa forma o objetivo central do sonho era a realização do próprio desejo e por conseqüência a nossa realização.
É em nossos sonhos que procuramos realizar os nossos mais profundos e sinceros desejos que, se feitos à luz do dia seriam motivo de vergonha e horror para aqueles que junto conosco compõem uma sociedade impostas de valores e conceitos. Quando temos o ato de fecharmos nossos olhos, temos isso como um passaporte para outro país, o país das maravilhas, bom de certo modo a maravilha que gostaríamos que fosse nossa vida.
Entrando profundamente nesse vasto mundo de desejos reprimidos e não realizados; fazemos um mergulho direto para nosso inconsciente, ou seja, para dentro de nós mesmos, tentando procurar o máximo de realização.


Há dentro de nós certo grau elevado de aspirações sociais; tendências em que somos criados, e que cria em nós mesmos certo tipo de CENSURA.
O pesadelo se dá quando há uma satisfação consciente da personalidade que visa os princípios morais, em vez de haver uma satisfação dos desejos reprimidos instintivos. Buscamos em primeiro lugar a “tranqüilidade” em estabelecer uma satisfação com nossa consciência moral do que com nossos desejos, é assim que acontecem os pesadelos.