segunda-feira, 21 de dezembro de 2015



O COMPLEXO DE ELECTRA



O complexo de Electra é baseado no um mito grego segundo o qual Electra, para vingar o pai, Agamêmnon, incita seu irmão Orestes a matar a mãe, Clitemnestra, e seu amante Egisto, que haviam assassinado Agamêmnon.Como vimos, no complexo de Édipo o menino sente um amor intenso pela mãe, identificando-se com o pai, sente desejo em ocupar seu lugar sentindo então raiva, medo e culpa. Imagina então que o pai pode cortar seu pênis (complexo de castração). A menina também vive este complexo, mas neste caso sente inveja do pênis, originando o denominado complexo de Electra.A menina, nesta fase, sente uma espécie de frustração e ressentimento para com a mãe, culpabilizando-a por não possuir o pênis, este é um momento crítico no desenvolvimento feminino. Segundo Freud: "A descoberta de que é castrada representa um marco decisivo no crescimento da menina. Daí partem três linhas de desenvolvimento possíveis: uma conduz à inibição sexual ou à neurose, outra à modificação do caráter no sentido de um complexo de masculinidade e a terceira, finalmente, à feminilidade normal"(1933, livro XXIX, p.31).Inicialmente, tal como os meninos é para a mãe que são dirigidos os impulsos eróticos da menina, mas por considerar-se castrada pela mãe, ela busca nas excitações clitorianas a resposta para o que a diferencia anatomicamente do menino, mas a expectativa de que o clitóris cresça e se transforme num pênis é logo descartada. O que gera um sentido de frustração para a com a mãe, quando ela sente que precisa abandonar o foco do clitóris para a vagina e canalizar o amor que sentia pela mãe no amor paterno.





O Sonho à Luz da Psicanálise

Diante de tantos acontecimentos vividos diariamente, tantos compromissos e atividades efetuadas de forma sistemática, acabamos nos defrontando com o cansaço e o stress da vida moderna. Quando conseguimos nos desligar deste mundo atribulado e cheio de informações, só pensamos em descansar a nossa mente e o nosso corpo e prepará-lo para uma bela noite de sono.
Quando dormimos entramos em um “processo mágico”, pois é durante o sono que alcançamos e sentimos o poder de mergulhar em um mundo totalmente novo e secreto: o nosso Inconsciente.
Durante o sono dispomos de forças inconscientes que nos levam a sonhar, todas as pessoas sonham e os sonhos como nos diz Freud, são a realização de um desejo. Desejos esses que existem dentro de cada um, mas que devido aos costumes, cultura, educação e a moral da sociedade, foram recalcados, reprimidos ficando assim, no mais fundo e obscuro de nosso inconsciente, só manifestando seu poder durante os sonhos.
Os sonhos á luz da psicanálise são como uma válvula de escape para nossos desejos mais secretos, desejos vistos como proibidos por nós mesmos através do que a sociedade nos impõe, sublimados e manifestados nos sonhos.

Os conteúdos inconscientes sempre estiveram presentes e se manifestam em nossa vida de diversas formas, entretanto, essas manifestações inconscientes só tiveram total atenção com os trabalhos de Freud sobre a interpretação dos sonhos, que até então era desprezada pelos cientistas da época.
Os sonhos possuem conteúdos manifestos e latentes e fazer a distinção destes conteúdos para Freud foi um canal de encontro para a estranheza das pessoas que deparavam com seus pensamentos. Pois, os conteúdos latentes dos sonhos, indicavam manifestações do inconsciente e eram necessários métodos exclusivos para se entender o real significado, feito isso, os sonhos acabavam se revelando como desejos inconscientes sempre com material recalcado e infantil indicando uma relação com algo de caráter sexual.
Entender os significados dos sonhos a priori foi de extrema importância para a teoria psicanalítica, pois através de suas interpretações, foi possível desvendar o material oculto de cada individuo e concomitantemente entender a sua construção psíquica.
Os sonhos configuram-se como métodos de descargas de pensamentos, que são sublimados para que dessa forma não afetem diretamente nosso imaginário, por isso muitos sonhos são vistos como absurdos e ilógicos à primeira vista, embora seja totalmente o contrário. O material dos sonhos possui conteúdo psicológico fundamental para o estudo da mente.
Para se analisar os sonhos são imprescindíveis que não se direcione a atenção somente aos conteúdos manifestos, mas principalmente nos conteúdos latentes dos sonhos, pois é ai que se encontra seu verdadeiro significado.
 Portanto, dar atenção aos sonhos e aos seus significados é ao mesmo tempo dar atenção aos conteúdos mentais que foram recalcados e sublimados da consciência pela ação de nosso ego e superego, pois é nos sonhos que nossos desejos primitivos e instintivos (id) encontram vazão para conquistar seu lugar ao sol.
Ao falarmos de sonho, estamos nos referindo ao termo “sonho manifesto”, que é quando o indivíduo faz o relato do que vivenciou dentro do sonho, logo após ter acordado, ou seja, é o ato de lembrar-se. Quando nos referimos ao que o sonho traz, seu significado, dizemos que este ato é especificado como “conteúdo latente do sonho”.
O conteúdo latente do sonho é a primeira parte do processo de sonhar formado por três componentes: I- impressões sensoriais noturnas; II- pensamentos e idéias relacionadas às atividades do dia (fragmentos do nosso cotidiano, antes de pegamos no sono); III- impulsos do ID.
São as impressões sensoriais do indivíduo que se referem ao que os sentidos capturam mesmo durante o período de dormência ( os barulhos ao seu redor; seus desejos, como beber água, calor, frio,etc.) tudo o que podemos adquirir nesse estágio se refere ao conteúdo latente do sonho.
Em relação aos pesadelos, eles foram um dos maiores desafios que Freud encontrou, ele era a prova de fogo que desafiava a doutrina do pai da psicanálise. Pensando que o sonho era a realização de um desejo reprimido; não poderíamos sentir a tristeza, ou seja, o desespero e a angústia do pesadelo, se de certa forma o objetivo central do sonho era a realização do próprio desejo e por conseqüência a nossa realização.
É em nossos sonhos que procuramos realizar os nossos mais profundos e sinceros desejos que, se feitos à luz do dia seriam motivo de vergonha e horror para aqueles que junto conosco compõem uma sociedade impostas de valores e conceitos. Quando temos o ato de fecharmos nossos olhos, temos isso como um passaporte para outro país, o país das maravilhas, bom de certo modo a maravilha que gostaríamos que fosse nossa vida.
Entrando profundamente nesse vasto mundo de desejos reprimidos e não realizados; fazemos um mergulho direto para nosso inconsciente, ou seja, para dentro de nós mesmos, tentando procurar o máximo de realização.


Há dentro de nós certo grau elevado de aspirações sociais; tendências em que somos criados, e que cria em nós mesmos certo tipo de CENSURA.
O pesadelo se dá quando há uma satisfação consciente da personalidade que visa os princípios morais, em vez de haver uma satisfação dos desejos reprimidos instintivos. Buscamos em primeiro lugar a “tranqüilidade” em estabelecer uma satisfação com nossa consciência moral do que com nossos desejos, é assim que acontecem os pesadelos.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Para que adoecemos?

Suponho que a pergunta acima deva ter produzido nos leitores um leve estado de confusão. Afinal, a pergunta correta não seria: “Por que adoecemos?” em vez de “para que”? De fato, admito que não temos tido a experiência cotidiana de pensarmos nossas doenças como sendo destinadas a alguma finalidade. Por outro lado, não nos furtamos a atribuir a quase todas as nossas demais ações alguma motivação, ou seja, algumaintenção subjacente. Quando nos perguntam coisas como: “Para que você está trabalhando?” não titubeamos para fornecer uma série de razões: conseguir dinheiro, ajudar a família, sustentar um lar etc. Do mesmo modo ocorre com inúmeros outros comportamentos que emitimos no dia-a-dia: temos motivos para comer, para sair à noite, para estudar, para acessar o Facebook, para ir à academia etc. Recorri a tais exemplos apenas com o intuito de mostrar que boa parte da nossa vida é feita de ações que praticamos tendo em vista um objetivo final, um sentido, um propósito.
O que Freud explica
Essa dimensão da existência se tornou ainda mais larga a partir do final do século XIX quando Freud descobriu através do método psicanalítico que uma série de atos psíquicos e comportamentos que, até então, eram vistos como não sendo dotados de significado, se revelou prenhe de intenções e finalidades. Depois da psicanálise, se nos tornou impossível pensarmos os sonhos, os esquecimentos, os lapsos de escrita e todos os tipos de atos-falhos como não sendo carregados de intenções subjacentes, capazes de serem reveladas a partir de uma investigação metódica. Freud, portanto, ampliou ainda mais a esfera da experiência humana em que a subjetividade se faz presente. A partir de então, até os detalhes mais ínfimos da vida cotidiana passaram a receber a atenção dos psicanalistas com vistas à descoberta de tácitos desejos inconscientes.
O que Freud não quis explicar
Todavia, conquanto o maior êxito de Freud tenha sido o de levar a hipótese do inconsciente para a clínica psiquiátrica – o que o permitiu trabalhar com as neuroses a partir da concepção de que os sintomas possuiriam um sentido – a subjetividade encontrou aí, no campo das doenças psicológicas, sua fronteira. Em outras palavras, a psicanálise derrubou os limites da consciência a fim de submeter todas as manifestações psíquicas ao determinismo psíquico, o que só poderia acontecer pela admissão da hipótese do inconsciente. Entretanto, ocorpo permaneceu do lado de fora do campo da subjetividade. Nesse sentido, depois de Freud todo acontecimento que está relacionado ao psiquismo possui sentido, finalidade, ou seja, pode ser interpretado a fim de que suas motivações sejam descobertas. Tudo o que diz respeito ao corpo, não obstante, permanece sem significação, submetido unicamente às leis da causalidade física. Dito de outro modo, Freud não avançou a ponto de fazer a subjetividade ultrapassar as fronteiras do psíquico e passar a englobar o corpo.
O modelo biomédico e seu dualismo
É por isso que a pergunta que figura no título deste texto nos parece tão desarrazoada. Acostumamo-nos, mesmo nós, psicanalistas, a pensar a doença a partir do ponto de vista do modelo biomédico, que é a racionalidade que fundamenta a medicina moderna, herdeira dos pressupostos modernos da ciência. Aliás, Freud sempre se manteve fiel a esse modelo, por mais revolucionário que fosse o pai da psicanálise.
Um dos pressupostos que estão na base do modelo biomédico é a separação entre corpo e psiquismo, a qual dá origem à conhecida distinção entre doenças somáticas e psíquicas, com o nebuloso campo psicossomático figurando entre um grupo e outro. Esse dualismo na biomedicina, ao entranhar-se no pensamento comum, nos leva a conceber como sendo impossível uma união indissociável entre subjetividade e corpo. O máximo que conseguimos admitir ainda hoje é que fatores emocionais podem ocasionar somatizações. Mas não é disso que eu estou falando. Não estou me referindo a incidências do psiquismo no corpo, pois, para admitir fenômenos dessa natureza, é preciso supor previamente que as duas instâncias que interagem estão originalmente separadas.
Quando falo de união indissociável entre subjetividade e corpo, estou pensando numa concepção que me permita pensar, por exemplo, que eu posso ficar resfriado não apenas por conta da entrada de um vírus no meu aparelho respiratório, mas para atender a determinados propósitos subjetivos como, por exemplo, evitar certos tipos de cheiros que me recordem lembranças desagradáveis, o que seria possível em função do entupimento do nariz, que é um dos sintomas do resfriado.
Georg Groddeck e a doença como criação
O único autor que, até hoje, vi admitir expressamente tal possibilidade foi Georg Groddeck, que, embora tenha se inserido no campo da psicanálise, não precisou do método psicanalítico para começar a pensar dessa forma. Diferentemente de Freud, que via no inconsciente (e, posteriormente, na pulsão) o link perdido entre corpo e psique, Groddeck não via a necessidade de haver um link! Afinal, corpo e psiquismo eram para ele tão-somente linguagens distintas que o Isso, a totalidade individual, utilizava para se expressar. Em outras palavras, para Groddeck, nós não seríamos seres divididos em uma parte psíquica e outra somática, mas sim indivíduos e, como a própria palavra já indica indivisíveis, integrais, singulares, que ora escolhem as manifestações do corpo, ora as da psique para exprimirem suas intenções.
É essa matriz de pensamento que permitiu a Groddeck pensar todo e qualquer tipo de doença como sendo marcado pela subjetividade, ou seja, como tendo propósito e sentido. Nesse ponto, o leitor pode me inquirir: “Ok, eu admito que, em alguns casos, nós podemos adoecer para atingirmos determinados fins, mas na grande maioria das vezes isso não ocorre. Vide os casos, por exemplo, de tuberculose, que são causados pelo bacilo, ou seja, independem das nossas intenções.”
A finalidade não é a causa única da doença
Respondo a esse questionamento com um argumento utilizado pelo próprio Groddeck: ora, qualquer pesquisador sério sabe que não basta a presença do bacilo de Koch para que alguém contraia a tuberculose. Os bacilos estão por aí, em milhares de corpos que jamais tiveram qualquer sintoma da doença. Por que, então, apenas alguns indivíduos contraem a enfermidade? A explicação que Groddeck propõe e que de forma alguma pretende esgotar o campo dos fatores etiológicos da doença, é de que os indivíduos que adoecem encontram algumpropósito no adoecer, intenção que, evidentemente, é de qualidade inconsciente. Atentem para isso: Groddeck não está dizendo que a finalidade, o motivo que o sujeito encontrou para ficar doente é a causada doença. Groddeck, aliás, abdica de qualquer tentativa de tentar solucionar o problema da causalidade das patologias. O autor não está dizendo que sem o bacilo e apenas com o propósito de ficar doente, é possível contrair tuberculose. O que ele está propondo é que em qualquer tipo de doença, o elemento subjetivo estará presente como um dos fatores em jogo no processo de eclosão da enfermidade.
As palavras e o corpo
O ponto nevrálgico do posicionamento de Groddeck repousa em uma constatação óbvia, que qualquer pessoa que já tenha chorado na vida é capaz de averiguar: trata-se da capacidade que têm as palavras, isto é, o mundo simbólico, de nos impactar, levando-nos à produção de determinadas reações orgânicas. Mencionei o exemplo do pranto: quantas vezes na vida nosso choro não foi desencadeado apenas por termos ouvido determinadas palavras ou pensado em outras? Ora, se as palavras exercem tal poder sobre nosso organismo, levando à produção de lágrimas, porque deveríamos suspeitar da possibilidade de que em outras condições, reações patológicas possam ser produzidas associadas a elementos simbólicos?
Dito de outro modo, Groddeck acerta ao propor que vejamos a doença não apenas como um distúrbio orgânico, mas, sobretudo, como umacriação individual, porque o ser humano se encontra totalmente imerso no universo simbólico. Embora seja na dimensão psíquica que os símbolos se manifestem de modo mais visível, todos nós temos a experiência cotidiana de perceber que nosso corpo reage a eles. Em decorrência, trata-se de um grave equívoco pensar que o simbólico, isto é, o campo em que os fenômenos são dotados de sentido, de propósitos, de “para quê”, engloba apenas o conjunto de nossas manifestações psíquicas.
Quando modificamos o modo tradicional que temos de pensar o corpo, qual seja, como uma máquina, um objeto que funciona dissociado dos meus processos psicológicos, e passamos a adotar o ponto de vista segundo o qual somos uma totalidade simbólica, que está imersa no universo da linguagem, nossa relação com a doença muda completamente. Basta um simples exercício de começar a verificar as conseqüências produzidas em seu cotidiano após o advento de uma doença. O que você teve que deixar de fazer? O que foi obrigado a fazer? Como as pessoas à sua volta passaram a se comportar depois que você adoeceu? O que o órgão sobre o qual a doença incidiu significa para você? Alguém que lhe é importante já ficou doente desse mesmo órgão?Ao se fazer tais perguntas e outras a elas associadas sempre que adoecer e respondê-las com sinceridade, você ficará surpreso ao perceber a funcionalidade que a patologia teve em seu cotidiano, mesmo lhe causando sofrimento.

Id, ego, superego: entenda a segunda tópica de Freud

Este texto tem o objetivo de apresentar sinteticamente a dinâmica relacional entre as instâncias psíquicas da chamada segunda tópica de Freud. Espero que, ao final, você consiga compreender como id, ego e superego se constituem e se relacionam e qual a relevância desses conceitos para a clínica psicanalítica.
Nessa primeira parte do texto você verá: (1) quais foram os equívocos teóricos cometidos pela psicologia geral na interpretação da segunda tópica e (2) qual deve ser a melhor estratégia metodológica para o entendimento adequado dos conceitos de id, ego e superego.
Pré-conceitos
Id, ego e superego são sem dúvida alguns dos conceitos psicanalíticos que mais se popularizaram tanto no âmbito da psicologia geral quanto no senso comum, sobretudo nos Estados Unidos. Essa constatação por si só já é suficiente para nos despertar certa curiosidade, afinal a maior parte das descobertas da psicanálise, a exemplo da sexualidade infantil, da etiologia sexual das neuroses e do pensamento inconsciente geralmente foi recebida com um alto grau de resistência, principalmente entre os americanos.
As noções de id, ego e superego, no entanto, tiveram um destino diferente e foram sossegadamente incorporadas ao vocabulário psicológico comum. Minha hipótese para explicar essa peculiaridade é justamente o que me motivou a escrever este texto.
Penso que se essa tríade conceitual foi aceita com tão pouca resistência pela psicologia geral isso se deve a uma má compreensão dos conceitos por parte dos não analistas e até mesmo por certos psicanalistas.
Com efeito, influenciada pelas analogias e metáforas didáticas que Freud elaborou para explicar como as três instâncias psíquicas interagiam, a psicologia geral acabou por considerar tais conceitos como meros nomes psicanalíticos para três dimensões da experiência humana milenarmente conhecidas e que não precisaram da psicanálise para serem trazidas à luz, a saber: as paixões, a razão e amoral. Assim, o id seria o conceito representativo das paixões, o ego o da razão e o superego o da moral. Você mesmo, leitor, provavelmente já deve ter lido tais equivalências em algum livro de psicologia geral ou as ouvido de algum professor que não era psicanalista.
Entretanto, asseguro-lhe que mesmo uma leitura superficial da obra “O Ego e o Id” (texto em que Freud introduz as noções de id e superego e apresenta uma nova visão do ego) já é suficiente para que se perceba que reduzir id, ego e superego a representantes das paixões, da razão e da moral constitui-se em um grave equívoco teórico na medida em que, agindo dessa forma, não se faz referência justamente aos aspectos mais cruciais de cada conceito e que são justamente as novidades trazidas pela experiência da psicanálise.
Portanto, o que você lerá a seguir é uma tentativa de explicar em conjunto a tríade id, ego e superego a partir dos fenômenos e experiências subjetivas que cada conceito pretende descrever. Ao final, você será capaz de perceber que somente se nos detivéssemos aos aspectos mais superficiais dos conceitos seria possível estabelecer uma analogia entre id e paixões, ego e razão e superego e moral. Uma análise aprofundada nos leva inevitavelmente a considerar tais noções como instrumentos teóricos para a compreensão de realidades subjetivas singulares, que não necessariamente têm a ver diretamente com paixões, razão e moral.
Fazendo a pergunta correta
Toda vez em que queremos entender com certo rigor algum conceito teórico, o procedimento metodológico mais correto não é se perguntar pelo significado do conceito, mas antes pelas razões que levaram o autor em questão a introduzi-lo. Em outras palavras, a pergunta correta a ser feita perante um conceito é: “Por quê?” e não “O que é?”. Frequentemente, ao adotarmos essa estratégia, deparamo-nos com os problemas e impasses empíricos e/ou teóricos enfrentados pelo autor, os quais são justamente o que motivou a produção de um novo conceito ou a reformulação de ideias anteriores.
Os conceitos de id, ego e superego não fogem a essa regra. Freud os elaborou para resolver problemas. No caso dele, para dar conta de achados clínicos inusitados e limitações verificadas nas noções teóricas que até então vinha utilizando. Nesse sentido, para compreender de fato o essencial dessa tríade conceitual freudiana, é preciso que nos façamos o seguinte questionamento: “Por que, afinal de contas, Freud precisou criar os conceitos de id e superego e reformular a noção já existente de ego?”.
Como disse na introdução da primeira parte do texto, meu objetivo aqui é, sobretudo, o de desfazer alguns mal-entendidos que com muita frequência se fazem presentes na leitura que o senso comum e a psicologia geral fazem dos conceitos de id, ego e superego.
Nesta segunda parte, ainda não abordarei diretamente a tríade, pois, como eu também disse anteriormente, é preciso compreender o que levou Freud a introduzir a segunda tópica. E é justamente isso o que verá no texto abaixo. Em termos mais específicos, você aprenderá:
(1) Que Freud, conquanto fosse um terapeuta, nunca deixou de formular hipóteses acerca da organização do psiquismo;
(2) Que a chamada “primeira tópica” (Consciente, Pré-consciente, Inconsciente) foi uma hipótese desse tipo;
(3) Que a clínica acabou revelando que a primeira tópica era insuficiente, principalmente o termo “Inconsciente”.
Vejamos agora, tudo isso, detalhadamente:
Sabe-se que Freud, embora tenha inventado um método de tratamento das neuroses, a psicanálise, jamais deixou de lado o seu desejo de ser um cientista. É por isso que desde o início de sua obra encontramos não apenas descrições e análises de experiências da clínica, mas também tentativas de sistematizar a estrutura e o funcionamento do psiquismo.
O primeiro esboço de uma formulação teórica dessa natureza se encontra no chamado “Projeto para uma Psicologia Científica”, um livrinho escrito em 1895, que Freud deixou engavetado e só foi descoberto mais de uma década depois de sua morte. Naquele texto, Freud propunha a ideia de que o aparelho psíquico estruturava-se segundo uma divisão entre tipos específicos de neurônios e funcionava a partir da tendência geral a descarregar a energia produzida pelos estímulos externos e internos. Não nos deteremos nessa primeira concepção, pois ela não está diretamente associada ao surgimento dos conceitos de id e superego, embora no “Projeto” o termo ego já apareça. De todo modo, o sentido que Freud dera ao conceito naquele texto é consideravelmente distinto do postulado em “O Ego e o Id”.
A segunda tentativa de Freud de descrever a estrutura e o funcionamento mentais remonta aos seus primeiros estudos sobre a histeria ainda contando com a companhia de Breuer. Nesse segundo momento, Freud utiliza a capacidade de uma representação mental tornar-se consciente como critério para a divisão do aparelho psíquico. O psiquismo comportaria, então, três “territórios” os quais, é preciso que se diga, não possuem correspondência com a anatomia do cérebro, ou seja, são conceitos metapsicológicos, como dizia Freud.
A primeira tópica
Os três “reinos” da mente seriam: o consciente (Cs.), o pré-consciente (Pcs.) e o inconsciente (Ics.). No Cs. estariam as representações mentais das quais estamos plenamente conscientes no momento, o que faz dessa instância psíquica uma dimensão em permanente metamorfose, pois a todo momento novas representações mentais estão se tornando conscientes e deixando de sê-lo. No Pcs. se localizariam aquelas representações que podem vir a ser conscientes, mas que no momento não estão em nossa consciência. Já no Ics. estariam as representações que já estiveram no consciente e/ou no pré-consciente, mas que de lá foram expulsas por causarem muita angústia. Por conta disso, não podem mais tornar-se conscientes sem que se aplique uma considerável dose de trabalho, sendo que algumas jamais poderão novamente ser conscientizadas em função da alta carga de angústia que produzem.
Essa divisão do aparelho psíquico ficou conhecida na teoria psicanalítica como primeira tópica, pois se trata da primeira tentativa freudiana de descrever quais seriam, por assim dizer, os diferentes “lugares” (topos) do psiquismo.
Por que Freud não ficou satisfeito com a primeira tópica?
A primeira tópica se mostrou bastante útil para Freud quando a psicanálise estava direcionada primordialmente à compreensão das formações do inconsciente e da natureza das representações mentais que causavam angústia e eram recalcadas. Todavia, quando o foco da pesquisa psicanalítica começou a ser orientado para o ego – a instância do psiquismo que, por não suportar a angústia gerada por determinadas representações mentais, as mandava para o inconsciente – essa divisão do aparelho psíquico em consciente, pré-consciente e inconsciente começou a se mostrar insuficiente. Vejamos por que.
Até então, Freud achava que o ego estava totalmente situado no consciente e no pré-consciente, afinal no inconsciente estariam apenas aquelas representações mentais que o ego teria recalcado. Em outras palavras, naquele momento Freud considerava que o conflito psíquico que levaria ao adoecimento psicológico seria travado entre um ego consciente que não quer admitir determinados pensamentos e o conjunto inconsciente desses pensamentos recalcados, ou seja, um conflito ego versus inconsciente.
No entanto, a experiência clínica foi mostrando a Freud que uma parte considerável do ego também era inconsciente. Como Freud descobriu isso?
Ora, durante uma análise, o sinal clínico que evidencia que determinados pensamentos e recordações estão no inconsciente, ou seja, de que foram recalcados, é a dificuldade do paciente de se lembrar deles ou de falar sobre o assunto. Freud compreendia essa situação considerando que haveria uma resistência do ego bloqueando o acesso das representações mentais recalcadas e/ou de seus substitutos. O curioso, contudo, é que o próprio paciente não teria consciência de que estava empregando essa resistência! Logo, a resistência não seria um fenômeno consciente, embora fosse uma função do ego. Conclusão: o ego não é totalmente consciente. Além disso, as resistências se comportariam de modo semelhante às representações recalcadas, isto é, demandariam certa dose de trabalho para que fossem tornadas conscientes.
Essa descoberta jogou por terra a hipótese de que o conflito psíquico se fundamentaria numa oposição entre ego e inconsciente. No entanto, isso não significaria admitir que o ego não fosse um dos polos do conflito psíquico. De fato, mesmo sendo inconsciente, a resistência continuava a ser um fenômeno produzido pelo ego. O problema estava em sustentar que o outro polo do conflito seria o inconsciente, afinal descobrira-se que uma parte do ego também era inconsciente. E agora, o que fazer?
Freud se viu diante de um baita problema teórico: de que valia continuar utilizando o termo “inconsciente” para designar uma parte específica de nosso psiquismo se essa parcela da mente se parecia mais com um tremendo balaio de gato onde cabiam coisas tão heterogêneas como os impulsos reprimidos e as partes do ego que impediam que esses impulsos fossem reconhecidos pelo sujeito, ou seja, que provocavamresistência?
Não seria melhor passar a utilizar o termo “inconsciente” num sentido meramente descritivo, ou seja, apenas para fazer referência à forma em que se encontra uma representação mental da qual não estamos conscientes no momento?
“Sim, seria”: essa foi a resposta de Freud. Já que o conceito de inconsciente estava perdendo a especificidade que tinha no início da psicanálise, melhor seria abandoná-lo de vez.
Mas o que colocar em seu lugar? Se o conceito de inconsciente como uma região psíquica já não fazia mais sentido, logo aquela primeira divisão da mente em consciente, pré-consciente e inconsciente também iria para o ralo, certo?
Perfeitamente. O problema agora passava a ser então a elaboração de um novo modelo para representar o psiquismo. Se a mente não poderia mais ser pensada como dividida em consciente, pré-consciente e inconsciente, como uma seria uma nova estruturação, capaz de superar as limitações da primeira?
A aposta freudiana no conceito de Id
Freud foi encontrar o princípio da resposta que daria a essa pergunta num conceito extraído da obra do médico e psicanalista Georg Groddeck, acerca do qual já falei algumas vezes aqui no site e cuja obra, aliás, foi meu objeto de estudo no mestrado em Saúde Coletiva.
Influenciado pela leitura de Nietzsche, Groddeck vinha utilizando naquela época a palavrinha alemã “Es” (cuja tradução para o latim seria “Id”) para fazer referência a uma espécie de força vital que condicionaria toda a nossa existência, desde a formação dos órgãos do corpo até os nossos mais sutis pensamentos. Nesse sentido, nenhuma de nossas escolhas seria autônoma, ou seja, produto de nosso livre-arbítrio. Groddeck costumava dizer que em vez da frase “Eu vivo” deveríamos dizer “Sou vivido por isso”.
O que Groddeck queria, na verdade, era chamar a atenção para o fato de que nenhum de nós se encontra isolado do contexto em que vive e carrega em si as marcas de sua própria história. Em decorrência, todas as nossas escolhas são o produto da nossa relação coma natureza (da qual somos apenas uma modificação) bem como de nossa história. O conceito de “Es” servia para Groddeck justamente para evidenciar o fato de que o que nós chamamos de que nós não somos donos do nosso próprio nariz na medida em que nos encontra na dependência de fatores que estão para além de nós mesmos e acerca dos quais na maioria das vezes não temos consciência.
Ora, esse modo de entender a existência humana proposto por Groddeck era bastante semelhante à conclusão que Freud havia chegado desde que inventara a psicanálise e que sintetizou na famosa frase: “O eu não é senhor na própria casa.”. No momento em que Freud proferiu essa frase, o que ele tinha em mente era a força do inconsciente na determinação da conduta humana. Mas se a ideia de “o inconsciente” já não fazia muito sentido, como continuar sustentando que o “eu não é senhor na própria casa”?
Tomando emprestado de Groddeck o conceito de “Es”, ora! O termo parecia perfeito para designar a região da mente que Freud até então vinha chamando de inconsciente e, de quebra, não tinha os inconvenientes do termo inconsciente!
O vocábulo “Es” na língua alemã é um pronome impessoal. Por isso, as edições mais recentes da obra de Freud preferem traduzir o termo por “Isso” em vez de “Id”, justamente para valorizar esse aspecto semântico referente a algo indeterminado, desconhecido, obscuro. Essa característica, aliás, foi uma das razões que levaram Freud a gostar do conceito. Pareceu-lhe o termo ideal para contrapor ao ego, na medida em que colocaria em primeiro plano a verdadeira oposição que interessa à psicanálise, a saber: a oposição entre o ego e a pulsão, essa fome insaciável de viver que pode, paradoxalmente, colocar a vida em risco. É esse conflito que de fato esteve nas raízes da psicanálise e não o embate entre consciência e inconsciente!
O Id freudiano
Diferentemente de Groddeck, que entendia o Id como a expressão da nossa vinculação indissociável com o mundo, Freud privilegiou o significado do conceito referente a algo exterior ao ego, exemplificado na famosa frase de uma personagem da Escolinha do 
Professor
Raimundo: “Ele só pensa naquilo”. Esse “naquilo” é obviamente asexualidade, a qual, para Freud, se manifesta no ser humano de modo excessivo, desmedido e que, por conta disso, adquire uma conotação de exterioridade em relação ao ego. É por isso que, do ponto de vista freudiano, haverá sempre um conflito entre o ego e as pulsões no cerne de cada alma humana.
O Id é justamente o conceito que Freud empregará para situar o lugar que essas pulsões ocupam no aparelho psíquico. No Id se encontrariam tanto as pulsões sexuais quanto as pulsões de morte (responsáveis pela agressividade que dirigimos contra nós mesmos e contra os outros). As pulsões seriam os representantes no psiquismo de necessidades provenientes do corpo e buscariam unicamente a satisfação sem levar em conta as possibilidades reais de obtê-la e, muito menos, se essa satisfação faria bem para o sujeito. A norma que regula o funcionamento mental dentro do Id é o princípio do prazer, ou seja, no Id uma representação mental se liga a outra não em função de uma relação lógica ou semântica, mas sim devido ao fato de ambas estarem ligadas mutuamente a uma experiência de satisfação ou de busca dela. Assim, no Id, a fórmula 1 + 1 não é necessariamente igual a 2. Pode ser igual a 3 ou a 20 caso essa estranha equação favoreça a conquista do prazer e da satisfação. Em outras palavras, não há razão no interior do Id. A racionalidade é um modo de funcionamento mental a ser conquistado pelo sujeito.
No próximo post veremos como essa conquista é levada a cabo. Conheceremos de que modo o Id dá origem ao ego, esse filho ingrato que desde o nascimento já entrará em conflito com seu genitor e, se possível, veremos ainda o surgimento do terceiro e último elemento da segunda tópica, o famoso e feroz “superego”.

Complexo de castração
Através das análises que empreendeu, Freud pôde ter acesso a uma série de ideias e fantasias de seus pacientes relacionadas ao problema da diferença sexual entre homens e mulheres. A esse conjunto de conteúdos psíquicos, o pai da psicanálise deu o nome de “complexo de castração”. Freud observou que a diferença entre os sexos torna-se uma questão especialmente relevante para os indivíduos durante certo período da infância. O complexo de castração seria justamente uma tentativa de resposta para o problema. Quais são as ideias e fantasias que compõem o complexo de castração?
Aproximadamente aos 2 ou 3 anos, ansiosos por entenderem por que razão seus corpos seriam diferentes, meninos e meninas elaborariam algumas hipóteses. Entre os meninos, a teoria mais comum seria a de que as meninas, assim como eles, também teriam nascido com pênis. Contudo, por alguma razão, os membros delas teriam sido cortados – sinal de que os deles também poderiam ser. Já entre as meninas, duas teorias se sucederiam. Na primeira delas havia a crença de que o pênis que ainda não possuíam iria crescer à medida que o tempo passasse. Como a realidade acabava por refutar essa ideia, outra teoria lhe dava lugar: a de que teriam nascido castradas mesmo e que a culpa desse infortúnio seria de suas mães que lhes teriam concebido assim, “com defeito”. Em consequência, de acordo com as observações de Freud, as meninas tenderiam a desenvolver uma inveja do pênis dos meninos. Esses, em contrapartida, passariam a ter medo de se tornarem como elas, ou seja, seres castrados.
É preciso entender com precisão o que Freud pretende efetivamente transmitir ao dizer que após o complexo de castração, as meninas passam a sentir uma “inveja do pênis” dos meninos. Nos textos que dizem respeito a esse tema, Freud faz questão de frisar que o que está sendo invejado não é de fato o órgão genital masculino, mas o que elerepresenta para a criança que está ocupada com o problema da diferença entre os sexos. Para essa criança, o pênis funciona como o único atributo de diferenciação. Em decorrência, o fato de estar presente apenas nos meninos leva intuitivamente ambos os sexos à suposição de uma superioridade masculina, posto que a ausência do pênis nas meninas indicaria uma deficiência. É óbvio que se trata de uma fantasia que certamente recebe influências da ideologia patriarcal. Entretanto, a natureza fantasística dessas ideias não impede que elas produzam efeitos reais sobre a constituição da subjetividade. Na medida em que o pênis é tomado como o elemento que dá completude ao corpo masculino e que, ausente na mulher, a faz incompleta, pode-se interpretar o que Freud chama de “inveja do pênis” como a busca da mulher por algo que ela acredita que será capaz de restituir sua completude. A esse “algo”, Freud preferiu dar o nome de “falo” porque ele não precisa ser necessariamente um pênis, mas alguma coisa que possa exercer a mesma função de completude que a mulher um dia acreditou que o pênis exerceria para os homens.
Compensação
Ora, o que a experiência psicanalítica atesta é que grande parte das mulheres toma justamente o filho como esse objeto capaz de proporcionar-lhes essa completude imaginária! Em outras palavras, muitas mulheres investem seus filhos de uma significação fálica, tomando-os, na fantasia, como objetos capazes de torná-las completas. No limite, o bebê passa a servir de consolo para a falta de pênis. É como se a natureza, essa mãe primordial de todos nós, tivesse “corrigido” o erro de constituir as mulheres sem pênis, presenteando-as com filhos. Não estaria aí a origem da expressão “ganhar neném”?
A criança é percebida como algo que se ganha justamente porque na fantasia de boa parte das mulheres ela advém como compensação por uma suposta privação de outrora. Dito de outra forma, é como se a expressão condensasse um enunciado inconsciente mais ou menos assim: “Quando eu nasci, a mamãe natureza não me presenteou com um pênis, fazendo com que eu me sentisse incompleta e ficasse com uma baita inveja dos meninos, os quais foram todos agraciados com o membro. No entanto, qual não foi minha surpresa quando, ao ficar adulta, recebi a dádiva de poder gestar em meu ventre não um mero órgão, mas uma pessoa inteira! Eis que a natureza ao invés de me brindar com um pênis, me presenteou com um bebê! Eu, que achava que nunca poderia ser completa como os meninos!”.

“Ganhar neném”

normal_Cassatt-Mary-Mother-Holding-Her-BabyVocê já notou que muitas pessoas utilizam a expressão “ganhar neném” para se referirem ao ato de conceber uma criança? Apesar de ouvi-la com muita frequência aqui em Minas Gerais, onde resido, acredito que ela seja empregada em todo o país. A psicanálise nos ensina que as produções culturais – entre as quais se incluem os ditos populares – jamais se mantêm ao longo da história por acaso. É a capacidade de expressarem conteúdos inconscientes compartilhados socialmente o elemento que leva algumas delas a se perpetuarem e serem transmitidas entre gerações. Esse parece ser o caso da expressão “ganhar neném”.
Uma conclusão evidente que pode ser extraída dessa expressão pela simples consideração de seu enunciado é a de que nela o bebê é encarado como algo que se ganha, ou seja, um presente, uma dádiva, um dom. À primeira vista pode parecer que não há nenhum significado mais profundo que possa ser colhido daí. Afinal, as mães que conscientemente desejaram ficar grávidas amiúde sentem o nascimento de seus filhos de fato como uma dádiva. Aliás, no caso de pessoas muito religiosas, o filho frequentemente é recebido como uma graça divina. O que haveria de extraordinário nisso?
Em primeiro lugar, o fato de que o bebê seja visto como um dom não me parece uma ideia tão natural assim. Se levarmos em conta que, para ter um filho, uma mulher experimenta durante os nove meses de gravidez uma série de desconfortos e sofrimentos bem como fortes dores na hora do parto, o mais natural seria encarar o nascimento do bebê como um produto que demandou muito esforço para ser elaborado e não como uma dádiva! Presente é aquilo que recebemos gratuitamente, sem que precisemos trabalhar para consegui-lo. Aparentemente, esse não seria o caso dos bebês, os quais, como eu disse, só vêm ao mundo depois de um árduo trabalho. A propósito, não é por acaso que se utiliza a expressão “trabalho de parto”.
Portanto, a ideia de que o bebê é um presente e não um produto ou uma conquista não pode ser fruto da experiência de gravidez. Sua origem deve ser buscada alhures. Fundamentado na teoria psicanalítica, defendo e pretendo demonstrar aqui a hipótese de que a expressão “ganhar neném” guarda, na verdade, um significado inconsciente que está relacionado ao lugar que o filho tende a ocupar na subjetividade feminina.